Coreografias na Igreja?
Autor: Administrador ITS
A dança faz parte do culto cristão? Uma análise bíblica a partir do Princípio Regulador do Culto.
Quando se discute a presença da dança no culto cristão, alguns textos bíblicos são frequentemente utilizados para defender sua introdução na liturgia. Entre eles estão a dança de Miriã após a travessia do Mar Vermelho, a dança de Davi diante da arca da aliança, o episódio envolvendo Mical e a declaração de Jesus à mulher samaritana em João 4:23-24.
Entretanto, uma análise cuidadosa desses textos demonstra que nenhum deles estabelece a dança como elemento do culto público cristão. O problema central está em confundir manifestações legítimas de alegria, narrativas históricas e princípios gerais de adoração com elementos litúrgicos ordenados por Deus.
1. Miriã e Davi não estavam participando do culto público
Miriã dançou após a libertação do povo de Israel no Mar Vermelho. O texto descreve uma celebração pública diante de um grande ato redentor de Deus.
Êxodo 15:20-21
Então Miriã, a profetisa, irmã de Arão, tomou um tamborim na mão, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamborins e com danças.
O contexto não apresenta uma reunião litúrgica estabelecida por Deus. Não havia templo, nem uma cerimônia de culto organizada pelo sacerdócio, nem uma ordem de adoração sendo realizada. Tratava-se de uma manifestação pública de alegria diante da intervenção divina.
O mesmo princípio se aplica a Davi.
2 Samuel 6:14
Davi dançava com todas as suas forças diante do Senhor; e estava cingido de uma estola sacerdotal de linho.
O texto não descreve Davi realizando uma dança dentro do templo como parte do culto, mas participando de uma procissão pública enquanto a arca era conduzida para Jerusalém.
Transformar esses episódios em uma ordenança para o culto cristão significa transformar uma narrativa histórica em uma prescrição, algo que a Escritura nunca estabeleceu.
2. O episódio de Mical não condena aqueles que rejeitam a dança no culto
Outro argumento frequentemente utilizado é o episódio envolvendo Mical, esposa de Davi. Alguns afirmam que, como Deus puniu Mical por criticar Davi, qualquer pessoa que critique a dança no culto estaria cometendo o mesmo pecado.
Essa interpretação, porém, ignora completamente o contexto da passagem.
O problema de Mical não era uma preocupação piedosa com a reverência do culto, nem uma defesa da liturgia. O texto revela que ela desprezou Davi em seu coração.
2 Samuel 6:16
Mical, filha de Saul, estava olhando pela janela e, vendo o rei Davi saltando e dançando diante do Senhor, o desprezou no seu coração.
A própria resposta de Davi revela o verdadeiro motivo da atitude de Mical:
2 Samuel 6:21
Perante o Senhor, que me escolheu a mim antes que a teu pai e a toda a sua casa, mandando-me que fosse príncipe sobre o povo do Senhor, sobre Israel, perante o Senhor tenho me alegrado.
Davi deixa claro que a questão envolvia a escolha soberana de Deus em substituir Saul por ele como rei.
Além disso, havia uma história pessoal envolvendo Mical. Ela havia sido esposa de Davi, mas Saul a retirou dele e a entregou a outro homem.
1 Samuel 25:44
Saul tinha dado sua filha Mical, mulher de Davi, a Palti, filho de Laís.
Posteriormente, Davi exigiu sua restituição.
2 Samuel 3:13-14
Davi enviou mensageiros a Isbosete, filho de Saul, dizendo: Dá-me minha mulher Mical.
Portanto, a atitude de Mical estava relacionada ao ressentimento, ao orgulho e ao desprezo pela escolha divina, não a uma preocupação sincera sobre a presença ou ausência de dança no culto.
Usar esse texto para afirmar que aqueles que defendem o princípio regulador do culto estão sob condenação divina é uma aplicação equivocada da passagem.
3. O culto do Antigo Testamento não possuía dança como elemento litúrgico
Quando Deus estabeleceu o culto de Israel, Ele determinou cuidadosamente seus elementos.
Havia sacrifícios, oração, cânticos, leitura da Lei, ministério sacerdotal e, posteriormente, o serviço dos levitas no templo.
Entretanto, não encontramos a dança como elemento prescrito da adoração pública.
Levítico 10:1-3 mostra que Deus não aceita uma adoração criada pela vontade humana.
Nadabe e Abiú ofereceram fogo estranho perante o Senhor, algo que Ele não havia ordenado.
O problema não estava simplesmente na ação realizada, mas no fato de oferecerem algo que Deus não havia estabelecido.
Deuteronômio 12:32
Tudo o que eu vos ordeno observareis; nada lhe acrescentarás, nem diminuirás.
O culto pertence a Deus e deve ser regulado pela sua Palavra.
4. O Novo Testamento não apresenta a dança como elemento do culto cristão
Quando o Novo Testamento descreve a reunião da igreja, os elementos destacados são a doutrina, a oração, a comunhão, os cânticos, a leitura e a exposição da Palavra.
Atos 2:42
E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.
1 Timóteo 4:13
Aplica-te à leitura, à exortação e ao ensino.
Efésios 5:19
Falando entre vós com salmos, hinos e cânticos espirituais.
Não existe ordem apostólica ou exemplo da igreja reunida utilizando dança como elemento litúrgico.
5. O culto é uma ação da congregação, não uma apresentação para espectadores
O culto bíblico é congregacional. Toda a igreja participa.
Colossenses 3:16
Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria.
Na oração, nos cânticos e na confissão, o povo de Deus participa conjuntamente.
A dança litúrgica, normalmente, transforma um grupo em participantes ativos e o restante da igreja em espectadores. Isso se aproxima mais de uma apresentação do que de uma ação congregacional de adoração.
6. Tudo no culto deve promover edificação
Paulo estabelece um princípio fundamental:
1 Coríntios 14:26
Faça-se tudo para edificação.
Para Paulo, edificação envolve compreensão da verdade. Por isso ele afirma:
1 Coríntios 14:9
Se, com a língua, não pronunciardes palavras inteligíveis, como se entenderá o que dizeis?
A igreja é edificada quando compreende a Palavra de Deus.
7. João 4 e a verdadeira adoração em espírito e em verdade
Outro texto frequentemente utilizado para defender que a forma do culto seria irrelevante é João 4:23-24:
"Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade".
Entretanto, Jesus não estava tratando de elementos litúrgicos, mas da questão do local da adoração.
A mulher samaritana havia perguntado:
João 4:20
Nossos pais adoraram neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar.
A discussão era sobre geografia religiosa. Os samaritanos defendiam o monte Gerizim, enquanto os judeus defendiam Jerusalém.
Na antiga aliança, Deus havia escolhido um lugar específico para manifestar sua presença.
Deuteronômio 12:5
Buscareis o lugar que o Senhor vosso Deus escolher para ali pôr o seu nome.
Mas, com a obra de Cristo, a adoração não estaria mais limitada a um território específico.
Adorar em espírito significa adorar pela ação do Espírito Santo.
Filipenses 3:3
Nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito.
Adorar em verdade significa aproximar-se de Deus conforme a verdade revelada em Cristo.
João 14:6
Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.
Hebreus 10:19-20
Pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne.
Portanto, João 4 não ensina que o culto pode ser feito de qualquer maneira, desde que seja sincero. Jesus está ensinando que a verdadeira adoração da nova aliança acontece por meio do Espírito Santo e da obra redentora de Cristo.
8. Ordem e decência no culto cristão.
Paulo conclui seu ensino sobre o culto dizendo:
1 Coríntios 14:40
Tudo, porém, seja feito com decência e ordem.
O culto cristão deve refletir a santidade de Deus, não a criatividade humana.
As palavras utilizadas por Paulo nessa passagem também revelam princípios importantes sobre a maneira como a igreja deve se reunir para adorar.
A palavra traduzida como "ordem" vem do grego táxis (τάξις), que significa ordem, disposição correta, organização, sequência adequada e arranjo apropriado. A ideia não é simplesmente ausência de confusão, mas que cada coisa esteja em seu devido lugar, seguindo uma estrutura coerente e apropriada.
Paulo utiliza esse princípio justamente em contraste com os problemas que estavam ocorrendo na igreja de Corinto. Havia manifestações individuais sendo realizadas de maneira desordenada, e o apóstolo ensina que o culto não deve ser conduzido pelo impulso pessoal, mas de modo que toda a congregação possa compreender e ser edificada.
A palavra traduzida como "decência" vem do grego euschēmónōs (εὐσχημόνως), que significa de maneira apropriada, honrosa, respeitável, digna e conveniente. Refere-se a algo que corresponde ao caráter santo de Deus e que não promove desordem, constrangimento ou centralidade humana.
Portanto, quando Paulo ordena que tudo seja feito "com decência e ordem", ele está ensinando que o culto cristão deve possuir reverência, organização e foco na glória de Deus, e não ser transformado em um ambiente de exibição ou entretenimento.
Nesse sentido, a introdução da dança como elemento litúrgico apresenta dificuldades diante desses princípios, pois normalmente ela envolve um grupo específico realizando movimentos enquanto a maior parte da congregação permanece como espectadora.
O culto bíblico, porém, possui caráter congregacional. A igreja reunida participa conjuntamente da adoração: todos ouvem a Palavra, todos oram, todos cantam, todos confessam e todos participam da comunhão.
Além disso, quando a dança ocupa o centro da atenção da congregação, existe o risco de deslocar o foco da Palavra de Deus para a performance humana. Em vez de comunicar a verdade revelada e promover a edificação por meio da compreensão, ela tende a funcionar como uma apresentação diante da igreja.
Isso entra em contraste com o princípio estabelecido por Paulo de que tudo deve ser feito para a edificação da igreja.
A verdadeira adoração não consiste em acrescentar elementos que Deus não ordenou, mas em oferecer ao Senhor aquilo que Ele mesmo estabeleceu, de maneira reverente, compreensível, ordenada e decente.
Concluindo...
Os episódios de Miriã e Davi não estabelecem a dança como elemento do culto cristão. Eles descrevem manifestações públicas de alegria diante de acontecimentos extraordinários da história da redenção.
O episódio de Mical não condena aqueles que defendem o princípio regulador do culto, pois o pecado dela estava relacionado ao desprezo pela escolha soberana de Deus.
João 4 também não ensina que qualquer forma de expressão pode ser introduzida no culto, mas que a adoração da nova aliança não está limitada a um lugar geográfico, sendo realizada pelo Espírito Santo e mediante a obra perfeita de Cristo.
A alegria cristã é legítima, mas o culto público pertence a Deus e deve ser oferecido segundo a sua Palavra, com reverência, entendimento, ordem e decência.