Uma descrição da Personalidade
Autor: Administrador ITS
UMA DESCRIÇÃO DA PERSONALIDADE
O que é o ser humano?
Nossa discussão construtiva deve começar aqui, pois a eficiência do aconselhamento a seres humanos depende de nossa capacidade de compreender o que os seres humanos realmente são. Um homem é mais que seu corpo, mais que seu emprego, mais que sua posição social. E uma mulher é mais que uma mãe, mais que seu encanto, ou mais que seu trabalho. Estes são apenas aspectos através dos quais eles se expressam. A totalidade desta expressão é o reflexo exterior daquela estrutura interna que chamamos, um tanto vagamente, de “personalidade”. Psicólogos europeus empregariam aqui o termo “alma” como uma tradução de psyche. Mas para nós americanos a palavra “personalidade’ exprime com mais precisão aquela estrutura básica do ser humano, que faz dele ou dela uma pessoa.
Assim, devemos começar por determinar um conceito de personalidade. Se o aconselhador deixar de fazê-lo conscientemente, ele o fará, todavia, inconscientemente por exemplo, trabalhando sobre a suposição de que seu cliente deva desenvolver uma personalidade como a sua, ou como a de seu herói preferido, ou como a personalidade ideal vigente em sua cultura específica. O aconselhador sábio não abandonará essa questão fundamental aos caprichos de seu inconsciente, mas procurará traçar consciente e logicamente um quadro da personalidade.
Para maior clareza, apresentamos nossa conclusão antes de iniciarmos, isto é, que a personalidade é caracterizada pela liberdade, individualidade, integração social e tensão religiosa. Estes quatro princípios são essenciais para a personalidade humana, como veremos a seguir. Para apresentar uma definição mais completa, poderíamos dizer que a personalidade é a concretização do processo da vida num indivíduo livre. Socialmente integrado e consciente do espírito.
1. A personalidade é determinada?
A descrição determinante da personalidade é apresentada mais viva e persuasivamente pela psicanálise freudiana. Inquestionavelmente, Freud entrará para a História como um dos pensadores mais influentes de nosso século. Ele é um divisor de águas na história da luta do homem por compreender-se a si mesmo. Na verdade, Freud até certo ponto roubou da humanidade o luxo de ser hipócrita e desonesta - o que em parte explica por que foi atacado tão violentamente.
Freud nasceu numa era que necessitava da psicanálise, O século XIX de tal forma fragmentou a natureza humana, dividiu a vida em compartimentos e reduziu a vida moral a uma questão de decisões superficiais, que a psicanálise de Freud era muito necessária. Só à luz de nossa necessidade pode-se explicar a ampla influência da psicanálise. Freud veio mostrar-nos que a personalidade era muito mais complexa do que nossos pequenos sistemas deixavam transparecer. Ele descobriu que a “profundidade” da natureza humana estava contida nos domínios profundos e poderosos do inconsciente, O fato de ter centralizado o sexo como o mais influente dos instintos humanos, embora fosse uma posição muito extremada para ser aceita em seus detalhes, era uma reação inevitável ao moralismo vitoriano hipócrita, que supunha poder ignorar o fator sexo na vida, extirpá-lo e atirá-lo fora e então, alegremente, continuar a viver na “inocência”.
Ao explorar as motivações do inconsciente das pessoas, Freud remexeu muita coisa que era feia demais para ser agradável a uma geração que tentava resolver todas as questões no “centro imediato da decisão”, protelando assuntos morais pela assinatura de documentos, e problemas internacionais pela assinatura de tratados. Freud nos mostrou o lado feio da natureza humana. Se alguém ainda não acredita que a natureza humana tem um lado feio - representado por lascívias primitivas e crueldades selvagens — que olhe apenas para o estado de nosso mundo moderno devastado pela guerra. O nosso narcisismo nos levou a condenar Freud como um incentivador da difamação e da pornografia. Mas, como diz Jung, “somente um grande idealista poderia ter dedicado sua vida a desenterrar tamanha imundície”.
Freud foi um gênio analítico. Inventou um sistema para analisar a personalidade humana, chamada psicanálise, que ensina aos aconselhadores muita coisa valiosa sobre a função da mente humana. Ele observou que os ajustamentos dentro da mente do indivíduo podem entrar numa desordem caótica devido a “repressões”. Essas repressões, na realidade, significam que a pessoa está sendo desonesta consigo mesma. O processo é mais ou menos assim: um impulso instintivo força a passagem do interior do id (o caldeirão borbulhante de desejos, medos, tendências instintivas e toda sorte de conteúdos psíquicos do inconsciente) e busca expressão no mundo exterior. Mas o ego, localizado no limiar da consciência, a meio caminho entre o id e o mundo exterior, está ciente das proibições da sociedade contra a expressão desse desejo específico. Então ele recorre a algum ardil para reprimir o desejo. O ardil é um truque pelo qual o ego diz a si mesmo: “eu não quero exprimir esse desejo”, ou “ao invés daquilo, vou fazer isto”. Mas a repressão significa apenas que o impulso vai forçar novamente uma saída de outro modo desta vez sob a forma de algum sintoma neurótico, como a ansiedade, o embaraço, ou o esquecimento, ou mesmo alguma forma mais séria de psicose.
Quando um paciente neurótico se submete a um tratamento com algum psicanalista freudiano, o analista faz com que ele verbalize associações, procedimento conhecido como “livre associação”. Durante essa “confissão”, como é chamada, o analista fica à espreita de sinais de alguma repressão, como a hesitação do paciente em algum ponto crucial, ou o esquecimento, ou mostras de grande embaraço. Estas inibições ou bloqueios indicam uma falta de unidade na mente do paciente, uma falta de livre fluxo das tendências instintivas partindo de sua fonte inconsciente para a consciência e daí para a realidade. Esses sintomas são as bóias que indicam a existência de conflitos psicológicos subjacentes. Torna-se, então, função do analista identificar esses conflitos, trazendo-os do inconsciente para a claridade e, no caso de um conflito sério, aliviá-lo pelo processo da catarse psicológica, chamado ab-reação. O resultado visado é desemaranhar a mente do paciente, livrá-lo de seu “complexo” e restabelecer assim uma certa unidade funcional em sua mente.
Isso o deixa livre para elaborar alguma expressão mais satisfatória de seus impulsos instintivos na realidade. Ou, se esta expressão for impossível, o paciente pelo menos será levado a aceitar, franca e conscientemente, a necessidade da renúncia. O processo central da psicanálise consiste em retirar o conflito das trevas do inconsciente para a luz da consciência, onde ele pode ser reconhecido e razoavelmente manipulado. Freud diz: “Nossa utilidade consiste em substituir o inconsciente pelo consciente, em transladar o inconsciente para dentro do consciente”.
Dentre as valiosas contribuições que esse sistema de psicanálise traz para nossa compreensão da mente humana está, em primeiro lugar, o insight que ele nos dá da fabulosa extensão e potência do reino do inconsciente. A exploração dessa obscura hinterlãndia da qual surgem as grandes forças e motivações da vida, colocou nossa compreensão dos seres humanos em bases muito mais seguras. A psicanálise também mostra que devemos levar em consideração muito mais coisas que simplesmente o ego consciente. Este pobre “general”, na realidade, tem pouco poder de decisão, pois é batido de um lado para outro pelas forças instintivas do id, pelo mundo exterior e pelo superego (consciência). Por isso, a vida deve ser orientada para níveis bem mais profundos do que o da mera vontade consciente. Finalmente, a psicanálise freudiana prova que não podemos alcançar sucesso na vida moral através de um recurso tão simples quanto a mera repressão de qualquer tendência que a sociedade, ou o nosso próprio superego, acha intragável.
Mas o perigo do sistema freudiano de análise surge quando ele é tomado como uma interpretação determinista da personalidade como um todo3. O sistema pode simplesmente tornar-se um esquema de causa e efeito: o impulso instintivo bloqueado leva à repressão, esta leva ao complexo psíquico e este, por sua vez, à neurose. E a cura consiste, teoricamente, na mera reversão do processo: observar o sintoma neurótico, identificar o complexo, remover a repressão e, em seguida, ajudar o indivíduo a exprimir mais satisfatoriamente seus impulsos instintivos. Não queremos dizer que a terapia freudiana em sua prática seja tão simples assim. A terapia tem aspectos muito mais criativos e consegue sucesso precisamente por não se prender, estritamente, à teoria da causa e efeito. O perigo reside na influência da teoria freudiana ao construir uma visão determinista e mecanicjsta da personalidade na mente do público mal informado. As pessoas acabam concluindo que são vítimas de seus impulsos instintivos e que sua única salvação está em dar livre curso à libido sempre que o impulso surgir.
Certamente o sistema de causa e efeito é válido para certos aspectos da mente. Mas é um erro fazer generalizações partindo dessa área limitada, o que implicaria em dizer que os princípios deterministas e da causalidade explicam a personalidade em seu todo. Freud foi seduzido pela sistematização prática e acessível da ciência natural e usou-a como um leito de Prucusto, no qual ele deita a personalidade humana e a obriga a adaptar-se4. Essa falácia surgiu da incapacidade de reconhecer as limitações do método científico. Embora a objetividade da ciência nos auxilie enormemente a chegar a uma compreensão útil de certas fases dos fenômenos mentais humanos, imaginar que todos os aspectos criativos, muitas vezes imprevisíveis e certamente intangíveis da mente humana, possam ser reduzidos a princípios mecanicistas de causa e efeito é simples loucura. Consequentemente, a “psicologia da ciência natural” de Freud, como Rank a chama desviou-se em suas teorias para um determinismo final da personalidade.
Se um determinismo dessa espécie for aceito, a responsabilidade humana é destruída. O ladrão pode dizer: “Não fui eu que roubei a maçã, foi minha fome”. E o que dizer da intenção, da liberdade e da decisão criativa do indivíduo? Ora, estas coisas são básicas na personalidade, como veremos mais adiante.
Na realidade, um dos pressupostos básicos em toda psicoterapia é que os pacientes devem, mais cedo ou mais tarde, aceitar a responsabilidade por si mesmos. Por conseguinte, o determinismo pessoal que os escusa da responsabilidade torna-se afinal um obstáculo à restauração de sua saúde mental. O determinismo de causa e efeito só é válido para uma área limitada, ou seja, a área da neurose de repressão-complexo.
Quando o paciente é libertado do complexo, torna-se responsável pela elaboração criativa do destino de seu próprio futuro.
As pessoas neuróticas, segundo minha experiência, são, amiúde, exatamente aquelas que tendem a possuir uma personalidade determinista da vida. Elas procuram culpar outra coisa qualquer por seus problemas — seus pais, seu ambiente de infãncia, seus colegas. Elas parecem alegar: “qualquer coisa, contanto que eu não seja culpado”. Isso é compreensível, pois se elas admitissem sua responsabilidade, estariam forçadas a tomar uma iniciativa no sentido de superar a neurose. Naturalmente existe um número infinito de fatores determinantes em qualquer problema de personalidade.
Mas por baixo de tudo isso existe na autonomia própria do indivíduo um ponto de responsabilidade e de Possibilidade de desenvolvimento criativo e esse é o fator significativo.
Um homem de meia-idade, gerente de um pequeno negócio numa cidadezinfia com quem lidei recentemente, tinha o hábito de discutir o determinismo com muita veemência. Ele citava experimentos com macacos e toda sorte de paralelos pseudocientíficos rebuscados e parecia inclinado a provar a todo custo que o homem não era mais responsável por suas ações do que o eram os cães de Pavlov pelo surgimento da saliva em suas bocas, quando o estímulo apropriado era apresentado. A propósito, quando uma pessoa discute como se sua própria vida dependesse da discussão, podemos estar certos de que por trás de sua paixão existe mais do que um simples interesse objetivo pela verdade. Ela provavelmente estará tentando Poupar seu próprio esquema neurótico de algum distúrbio. Realmente, vim a saber que esse homem havia sistematicamente fracassado em vários empregos, desde sua formatura na faculdade. Falava de sua faculdade com embaraço e, mesmo assim, apenas para frisar que a educação universitária não era muito útil para a vida. Podemos concluir que esse homem tinha que acreditar no determinismo, já que fracassara em sua própria vida. Era a desculpa que o aliviava do peso opressivo de seu senso de fracasso. Estava fadado a ser um determinista, em função de seus erros. Mas a própria veemência com que discutia dava provas de seu sentimento de culpa subconsciente por seus fracassos. Ele discutia o determinismo precisamente porque Possuía uma profunda convicção de que não era totalmente determinado.
É certo que o determinismo funciona em alguns casos, mas esses são casos neuróticos. Neurose significa uma capitulação diante da liberdade a submissão do si-mesmo a fórmulas rígidas de treinamento. Como consequência personalidade nesse ponto torna-se uma máquina. A saúde mental significa uma restauração do senso de responsabilidade pessoal e, logo, uma restauração da liberdade.
2. A liberdade da pessoa
A liberdade é um princípio básico, uma condição sine qua non da personalidade. É por essa característica que separamos os seres humanos dos animais, uma vez que o ser humano tem a capacidade de quebrar as fortes cadeias do estímulo-resposta que wscravizam os animais. A mente sã é capaz de ter impulsos diferentes num estado de equilíbrio indeciso e, finalmente, tomar a decisão pela qual um dos impulsos prevalece. O primeiro pressuposto da personalidade humana é a posse dessas possibilidades criativas, que são sinõnimas de liberdade.
Não é propósito desse livro penetrar nas provas filosóficas da liberdade humana, mas tão-somente notar que, do ponto de vista psicológico, é essencial acreditarmos na liberdade para termos um quadro adequado da personalidade e, assim, aconselharmos eficazmente. Isso não deve ser chamado “liberdade da vontade”, pois implicaria em que uma parte específica do homem é livre e resultaria em discussões infindáveis acerca do determinismo metafísico, o que não levaria a nada5. Ao invés, a pessoa possui a liberdade como uma qualidade de seu ser total. Mas isso não significa que não exista um número infindo de influências determinantes agindo sobre o indivíduo de todos os lados e em todos os momentos - muito mais forças determinantes do que o século passado imaginava, ao dar ênfase ao simples “esforço”. Mas, a despeito do número de forças determinantes que afetam a John e Jane Doe, existe, no final, um elemento com o qual o senhor ou a senhora Doe moldam os materiais da hereditariedade e de ambiente dentro da sua estrutura própria e única. Tecer argumentos contra a liberdade só dá provas mais fortes dela. Pois um debate e qualquer tipo de discussão razoável, ou mesmo o simples formular perguntas, pressupõe essa margem de liberdade.
Os estudantes vêm muitas vezes ao aconselhador defender certo ponto de vista inconseqüente, baseados num conhecimento superficial da ciência natural, conhecimento esse apenas suficiente para lhes permitir ver sua força, mas não suas limitações. Se vier
à baila um problema de personalidade, o aconselhador não deve discutir a questão diretamente — o aconselhamento nunca é um debate. Deve o aconselhador mostrar as Possibilidades e assim, gradativamente levar o estudante a uma aceitação da responsabilidade por sua conduta e seu futuro.
O psicoterapeuta Otto Rank já explicou de forma definitiva a importância da liberdade e da responsabilidade na psicoterapia6. Tendo sido um dos discípulos mais chegados a Freud, Rank foi finalmente forçado a romper com o mestre, por Freud não admitir a centralidade da vontade criativa no tratamento psicanalítico7 Rank sustenta que, em última análise, devemos admitir que o indivíduo cria sua própria personalidade pelo querer criativo e que a neurose é devida, precisamente, ao fato de o paciente não conseguir querer construtivamente.
É possível crescer na liberdade Quanto mais saudável mentalmente a pessoa se tornar, tanto mais será ela capaz de moldar criativamente os materiais da vida e, por conseguinte, mais senhora será de seu potencial de liberdade. Por isso, quando o aconselhador ajuda um aconselhando a Superar seu problema de personalidade, na verdade ajuda-o a tornar-se mais livre.
Podemos resumir, sob a forma de um guia de aconselhamento, nosso primeiro princípio da personalidade, ou seja, a liberdade: É função do aconselhador levar o aconselhando a aceitar a responsabilidade pela direção e pelos resultados de sua vida. O aconselhador deve mostrar-lhe como são profundas as raízes da decisão e como toda a experiência passada e as forças do inconsciente devem ser levadas em conta. Mas, ao final de tudo, deve ajudar o aconselhando a apropriar-se de suas Possibilidades de liberdade e usá-las
3. Individual idade na personalidade
O segundo princípio básico da personalidade é a individualidade. A pessoa que vem ao aconselhador com um problema de personalidade o faz porque não consegue ser ela mesma — não consegue, em outras palavras, individualizar-se. Rank diz muito bem: “O tipo neurótico, que até certo ponto todos nós representamos, sofre pelo fato de não poder aceitar a si mesmo, de não poder suportar- se, fazendo então uma outra imagem de si mesmo”.
Afinal, a pessoa só pode contar consigo mesma para viver e enfrentar o mundo. Por mais que a pessoa deseje, se ela não puder ser ela mesma, nunca conseguirá assumir um outro si-mesmo. Todo si-mesmo é diferente de qualquer outro si-mesmo. Ele é único e a saúde mental depende da aceitação dessa singularidade.
Consideremos a infinita variedade das pessoas! Uma multidão num shopping center parece mover-se como uma fila de bolinhas de gude, todos com a mesma fisionomia sem expressão - mas olhemos por trás da máscara protetora e perceberemos a maravilhosa variedade e singularidade das características de cada indivíduo, O aconselhador ficará constantemente deslumbrado com a singularidade e originalidade de cada história que lhe contam. Às vezes, após uma exaustiva série de entrevistas, começo a julgar, subconscientemente, que já devo ter encontrado todos os tipos possíveis de pessoas e que o próximo aconselhando deverá ser apenas uma repetição enfadonha. Todavia, mal esse próximo aconselhando começou sua história, reconheço que ali está um romance emocionante que nunca li. Fica-se completamente maravilhado com a engenhosidade da natureza ao criá-los “macho e fêmea”, e a todos diferentes. O aconselhador sente vontade de exclamar com o salmista: “Quando contemplo vossos céus, o trabalho de vossas mãos... O que é o homem?... Vós o criastes um pouco menor que os anjos, e o coroastes com a glória e a honra”. É esta singularidade de cada pessoa que nós, como aconselhadores, procuramos preservar. A função do aconselhador é ajudar o aconselhando a ser o que o destino pretendia que ele ou ela fossem.
Os erros da vida ocorrem quando o indivíduo tenta representar algum papel que não o seu. O estudante que reiteradamente incide no mesmo erro nas funções sociais não pode ser rotulado como
inatan-iente grosseiro. Ele pode estar dominado por um medo interno que o faz tentar representar um papel que não é o seu e, naturalmente, o resultado é uni erro grave, Muitos exemplos de permissjv idade sexual juvenil devem ser entendidos como um resultado do medo de serem eles mesmos e o conseqüente agarrar-se desesperadamente a outro papel. Embebedarse é, obviamente, uma forma de fugir de si mesmo. Quando um jovem fica um tanto “alto” antes de uma festa, está preparando o terreno para não precisar ser ele mesmo durante a festa. A pergunta oportuna não é:
por que ele bebe tanto, mas sim: por que ele sente necessidade de fugir de si mesmo? Segue daí que devemos montar um programa social para os foSsos jovens, dentro do qual eles possam ser eles mesmos e encontrar nisso satisfação, Atividades sociais desse tipo seriam o melhor exercício para a saúde da personalidade
É óbvio que a Psicoterapia trabalha fundamentalmente sobre esse princípio da individualidade Ranlç tem-no como o objetivo de seu método: “Numa palavra, o objetivo é o autodesenvolvimento isto é, o desenvolvimento da pessoa em direção àquilo que ela realmente é”.
O julgamento definitivo sobre o assunto foi dado pelo renomado psicólogo suíço C.G. Jung. Seu trabalho intitulado Tipos psjcológicos foi tão oportuno para as necessidades modernas, que seus termos “introvertido” e “extrovertido” foram incorporados à linguagem popular O extrovertido vive de forma a corresponder às condições objetivas ou às exigências originadas fora dele. Como o homem de negócios ou o soldado, ele tende a enfatizar a atividade 1’. O introvertido, por sua vez, é orientado primariamen para dados subjetivos Poetas, filósofos e amantes da pesquisa científica tendem a cair nessa categoria, Não existe naturalmente nenhuma linha divisória bem estabelecida. Todos nós temos tendências mais ou menos introvertidas e extrovertidas Jung reconhece que seu sistema, aqui apresentado muito mais sumariamente do que ele o fez, é simplesmente um quadro de referência que proporciona apenas indicações muito gerais. Não é correto nem útil rotular pessoas. O próprio Jung, significativamente, é o psicoterapeuta que mais ênfase dá à individualidade. É útil mantermos um quadro bastante flexível de categorias para referências, mas é preciso lembrar que no final deve existir uma categoria única para cada indivíduo.
Na América existe uma tendência de identificar a extroversão com personalidade saudável e a introversão com personalidade enferma. Nós, americanos, temos tendência à extroversão por causa de nossos antecedentes ativistas e pioneiros e de nossa atual preocupação com o mundo dos negócios e com a indústria, tudo isso ligado a uma precária ênfase dadas as atividades culturais, especialmente do passado. É um engano nocivo julgar que o nosso tipo específico é o único saudável. O jovem que é essencialmente um artista, um filósofo dado a reflexões, ou um devoto da pesquisa científica, pode ser levado a tornar-se psicologicaniente enfermo, se forçado a assumir o posto de balconista. É claro que a precaução para não se tornar introvertido demais é salutar, e é muito mais perigoso ser demasiadamente introvertido do que extrovertido, pois podemos contar com a ajuda da sociedade para afastar o extrovertido de suas tangentes egocêntricas. Mas a finalidade última é fazer com que a pessoa encontre seu papel singular e único.
O erro mais pernicioso que muitos aconselhadores cometem é tentar encaixar o aconselhando à força dentro de um tipo específico - geralmente o tipo a que ele mesmo pertence. Se o aconselhador não se filiou a nenhum grêmio durante seus anos de faculdade, julga que é melhor ao estudante não se filiar também. Se o professor “queimou as pestanas”, estudando durante o curso de graduação, aconselha ao segundanista deixar de lado um pouco as atividades sociais e mergulhar nos livros. Esses são exemplos grosseiros, mas que deixam bem clara a questão, ou seja, existe sempre uma tendência perniciosa no aconselhador de ver o aconselhando dentro das categorias de suas próprias atitudes, segundo seus padrões morais e dentro da estrutura geral de sua personalidade. Conseqüentemente, tem a tendência de projetar seus padrões, aconselhando, violando assim a autonomia de sua individualidade.
Existe bom fundamento, portanto, para o conselho tão popularizado: “Seja você mesmo”. Todavia, pouco adianta dizer simplesmente à pessoa que “seja ela mesma”, pois o problema é precisamente ela não saber quem realmente é. O aconselhador percebe muitas vezes uma série de “si-mesmos” em conflito. Logo, dizer-lhe simplesmente que seja ela mesma, é piorar ainda mais a cofuso. Ela precisa em primeiro lugar achar a si mesma. E é aqui que entra o aconselhador.
A função do aconselhador é ajudar o aconselhando a encontrar o que Aristóteles chama de “enteléquia”, o elemento singjlar existente dentro da semente do carvalho, que a destina a tornar-se um carvalho. Jung diz: “Cada um de nós traz em si sua constituição específica de vida, uma constituição indeterminável que não pode ser substituída por outra”. Esta constituição de vida, o verdadeiro si-mesmo, alcança profundjd5 na mente do indivíduo muito maiores do que a mera consciência. A consciência pode até mesmo apresentar um reflexo distorcído dela, O indivíduo encontra-se a si mesmo ao unir seu si-mesmo consciente a vários níveis de seu inconsciente
Nesse ponto torna-se necessário descrever e definir mais claramente esse importante domínio do inconsciente. Todos já experimentaram o fato de apenas uma pequena porção do seu conteúdo mental estar consciente num dado momento O conteúdo mental move-se através da consciência numa corrente — comparável, talvez, ao movimento do rolo de um filme que, atravessado pela luz do projetoi- projeta na tela uma imagem que muda constantemen te. Na antiga comparação, a porção consciente da mente está em relação à porção inconsciente assim como a ponta do iceberg que aparece acima da água está para sua massa muito maior sob a superffcje Certamente nossas mentes chegam a profundidades infinitamente maiores do que qualquer área momentânea da consCiência A profundidade exata não a podemos determinar, pois inconsciente significa “desconhecido”.,Podemos apenas postular o inconsciente e observar sua manifestação funcional. As pessoas que se habituaram a pensar apenas dentro dos termos limitados da ciência exata às vezes hesitam em postular o inconsciente. Mas não fazê-lo significa amputar a grande massa de nossa vida mental. Pois o que seria de todas as lembranças, experiências passadas e os conhecimentos ad iníinitum que não estão em nossas mentes conscientes neste determinado momento, mas que podemos evocar em qualquer ocasião? Teoricamente, nenhuma experiência se perde. Nada realmente se esquece e as experiências da infância deixam suas influências na pessoa, mesmo que ela se mostre indiferente e ache que o assunto morreu para sempre. O esquecimento e a memória, além de outros problemas do inconsciente, são questões complexas sobre as quais ainda temos muito que aprender.
Nossa interpretação funcional descreve o inconsciente como um grande celeiro, contendo todo tipo de material psíquico: temores, esperanças, desejos e todas as formas de tendências instintivas. Mas o inconsciente melhor se compara a um dínamo do que a um silo, pois dele saem os impulsos e as tendências aos quais a consciência apenas indica a direção. Jung diz acertadamente: “Via de regra, as grandes decisões da vida estão muito mais relacionadas aos instintos e aos outros fatores inconscientes e misteriosos dp que à vontade con ciente e à razão bem intencionada”.
O inconsciente pode ser visto como uma série de níveis. Esse conceito corresponde à experiência atual, pois uma experiência de infânc4a parece ser muito “mais profunda” do que uma ocorrida ontem. Freud falou do “pré-consciente” como a porção do inconsciente imediatamente abaixo da consciência. Esse material pré- consciente que pode surgir com facilidade na consciência, somado às experiências da infância e ao material reprimido, podemos denominá-lo “inconsciente pessoal”.
Na medida em que penetramos mais profundamente no inconsciente, achamos cada vez mais material que a pessoa tem em comum com outros indivíduos. Jung dá o nome adequado de “inconsciente coletivo” a esses níveis mais profundos, O francês, por exemplo, ou o cidadão norte-americano guarda muito material em seu inconsciente que não adquiriu por experiência pessoal, mas que absorveu de seu grupo nacional. Isso deverá ter certa correlação com a história de sua nação, mas que é transmitido através de vias mais profundas do que aulas de História e leituras de texto. Embora o americano moderno esteja várias gerações distante dos primitivos pioneiros de seu país, as experiências destes se fazem sentir com certa força no seu inconsciente. Nas sociedades primitivas, onde a consciência coletiva é maior, é difícil dizer onde terminam as experiências dos ancestrais e onde começam as experiências dos habitantes hodiernos. Uma camada mais profunda do inconsciente é a que temos em comum com os outros membros de nossa raça, ou mais profunda ainda aquela possuída coletivamente por todos os membros do mundo ocidental.
E, finalmente, existem certas estruturas no inconsciente que o indivíduo possui em comum com toda a humanidade Jung as chama “arquétipos”, ou “imagens primordiais” — que são difinidos como as estruturas ou formas de pensamento que o ser humano
-possui simplesmente por ser humano. Esses arquétipos relacionam-se às estruturas básicas da mente humana. Isso explica por que a mitologia, embora tendo surgido entre povos de diversas raças e em diversos períodos da História, apresenta certas características comuns.
O inconsciente coletivo é herdado ou adquirido através da cultura? A resposta de Jung é direta: “Entendemos por inconsciente coletivo uma certa sedimentação psíquica, modelada pelas forças da heredjtarjedade»14 Na verdade, a origem do inconsciente coletivo não é o problema em questão. Observamos como ele trabalha funcionalmente Partindo desse ponto de vista, certamente é verdade que essas idéias básicas, como aparecem mesmo nas criações mitológicas das crianças, provêm de algo mais profundo, mais orgânico do que qualquer coisa que o indivíduo possa ter aprendido de seus educadores. Idéias específicas naturalmente são adquiridas do meio ambiente, e não estamos afirmando que todas as idéias humanas sejam “inatas”. Contudo, deve haver algo de estrutural na mente, comparável à forma estrutural do corpo, que se desenvolveria obedecendo a certas linhas gerais, mesmo que o indivíduo fosse isolado na ilha de Crusoé. Platão já se debatia com esse mesmo problema difícil, ou seja, descrever a atividade do inconsciente coletivo, quando explicou mitologicamente que o homem nasce com certas idéias que traz de sua existência anterior nos céus. Assim, Platão julgava que o conhecimento fosse como que uma reminiscência, ou um processo de extração daquilo que já existe no inconsciente’.
Desse inconsciente coletivo da humanidade florescem as artes, a filosofia, a religião e a melhor poesia. O grande artista (Ésquilo, Dante ou Shakespeare) extrai essas camadas profundas de dor e alegria, de medo e esperança humanos e, trabalhando-as como um artesão, expressa as formas eternas nelas existentes16. Uma obra clássica de literatura ou de arte em geral é a expressão das imagens psíquicas que o indivíduo tem em comum com todos os seus semelhantes. Mais tarde discutiremos as implicações da localização da religião dentro do inconsciente coletivo. Por enquanto, notemos apenas que a “consciência” adquire aqui um novo valor. A consciência é algo mais do que o simples resíduo da educação no lar, é mais do que uma expressão de solidariedade social. Ela remonta às misteriosas origens de nosso ser.
Voltemos à pessoa que vem ao aconselhador com um problema de personalidade. Ela necessita encontrãr seu verdadeiro si-mesmo. Isto é conseguido quando se alcança um certo grau de unidade entre a consciência, os níveis inconscientes de sua experiência de infância, as camadas mais profundas do inconsciente coletivo e, finalmente, aquela fonte de onde sua mente se origina, lá na própria estrutura do universo. Entende-se claramente agora por que a pessoa neurótica nunca conseguirá a saúde, enquanto culpar a educação que teve na infância por seu problema. Pois ela é, em parte, essa educação na infância e, ao combatê-la, estará lutando contra si mesma. Da mesma forma, o indivíduo que está constantemente em luta com a sociedade nunca chegará a uma personalidade saudável, pois está combatendo certas forças do inconsciente coletivo de sua própria mente.
Finalmente, aquele que luta contra o universo, negando-lhe significado e tentando cortar qualquer relação com ele, está na verdade combatendo o ponto mais profundo de si mesmo, que estabelece sua ligação com o universo. Esta é outra forma de dizer que a pessoa tem as raízes de seu inconsciente coletivo na estrutura criativa do universo, que é o Infinito. Ao duelar contra o Infinito, a pessoa está na verdade transpassando com o florete as áreas mais profundas de sua própria alma. A discussão desse assunto importante deve ficar reservada para o último capítulo. Basta dizer aqui que, quando o indivíduo realmente se encontra, ele encontra sua sociedade e encontra suas raízes nas fontes espirituais do universo.
Da individualidade, o segundo princípio da personalidade, derivamos o seguinte guia de aconselhamento: É função do aconselhador auxiliar o aconselhando a achar o seu si-mesmo verdadeiro e então ajudá-lo a ter a coragem de ser esse si-mesmo.
Por: Pr.Dr. Wagner Teruel
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